Covid-19, Pandemia

Estamos preparados para o fim da Pandemia?

Neste mês de dezembro completa um ano dos primeiros casos de COVID-19 registrados oficialmente na China. De lá para cá não imaginávamos que a história tomaria proporções tão grandes. Fronteiras e comércio foram fechados; viagens, festas e casamentos foram cancelados; sonhos foram adiados e mesmo aquele abraço em quem amamos fomos impedidos de dar. O noticiário nunca insistiu tanto em um mesmo assunto. Estamos todos esgotados de tanta informação, de tanto medo e de tantos conflitos causados pelas diferenças de opinião em relação a como agir diante da pandemia.

Falamos de vacina, em tomar e não tomar, em pesquisas, em efeitos colaterais. Nos aterrorizamos com uma possibilidade de uma nova onda e consequentemente hospitais com capacidade reduzidas e novas restrições. Discutimos sobre a volta ou não às aulas e as consequências psicológicas e educacionais causadas em nossas crianças. Dia após dia ouvimos sobre famílias que estão se desfazendo em meio ao caos, em violências domésticas, em festas clandestinas…

Mas pouco se fala do depois? Estamos preparados? Ou viveremos um dia de cada vez, como estamos fazendo há quase um ano?

Esta semana a Partiu Ser Nômade convidou a Psicóloga Ghislene Lima para conversar conosco e juntos fazermos uma reflexão sobre o Mundo Pós-Pandemia:

Partiu Ser Nômade: Antes de mais nada, gostaríamos que você fizesse uma análise geral e, obviamente superficial, dos problemas psicológicos que as pessoas estão vivendo. O que a pandemia especificamente engatilhou ou gerou nas pessoas?

Ghislene Lima: De maneira geral, estamos vivendo um momento de muito estresse e muita ansiedade. O que vejo em meus pacientes é que esta mudança de hábito muito repentina atingiu a todos. Então, assisto casos de pessoas que com o home office não tem limites para parar de trabalhar, pais que começaram a trabalhar de casa e tendo que administrar as crianças e as aulas de EAD (Ensino à Distância). Além disso, o medo do desemprego, a falta de uma rede de apoio, a angústia de não ver outras pessoas, a limitação de tempo de lazer e a solidão. Tudo isso, pegou todo mundo de surpresa. Assimilar todas essas mudanças é um processo individual e cada um reage de maneira muito peculiar.

Então, a pandemia engatilhou problemas ligados a isso: saber lidar com essa ansiedade e estresse gerado pelo medo. Temos visto alguns casos de depressão, crises de ansiedade, síndrome do pânico.

Além disso, percebo que a empatia, uma das palavras mais citadas nesta pandemia, não tem sido tão praticada assim. Ser empático é se colocar no lugar do outro, se identificar com ele, compreendê-lo. É uma habilidade emocional, mas como praticá-la mediante a um distanciamento social? Essa contribui na regulação das emoções, principalmente diante de um estresse.

Partiu Ser Nômade: É possível tentar nos prepararmos para a vida pós-pandemia apesar do cenário ainda incerto?

Ghislene Lima: Tudo é muito novo, mas eu acredito que estamos aprendendo e que ainda temos muito o que aprender. O medo vai persistir por um bom tempo, mesmo com a vacina. Então, o maior desafio é saber gerenciá-lo de forma saudável. Pois podemos ser pegos de surpresa com alguma novidade que ainda não calculamos.

É possível conviver com o medo. Ele é o gatilho da sobrevivência. O medo exacerbado desencadeia doença. É a intensidade que provoca ansiedade, síndrome do pânico, etc. Mas a partir do momento que você tem consciência dele, e aprende a lidar com ele, dentro desse futuro incerto, ele é importante, inclusive. A terapia é um dos melhores caminhos para isso.

Além de crises de ansiedade, estresse e depressão, no pós-pandemia especificamente, podemos enfrentar alguns problemas, como por exemplo, o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Certos hábitos de higiene, inevitavelmente vamos manter, até mesmo por conta de toda este cenário de incertezas. Talvez amenize no futuro, quando a vida for voltando ao ritmo normal, se encaixando às novas realidades. Mas por um tempo, eu acredito, que vamos manter estes hábitos pois não será fácil se libertar totalmente. O exagero nestes cuidados é que pode desencadear este transtorno, e as pessoas podem criar comportamentos como preocupação excessiva em limpar as mãos, os locais onde tocam, em chegar perto das pessoas e cumprimentá-las.

Outro problema que já vem sendo estudado é a Síndrome da Cabana como consequência desse isolamento. Esta síndrome não é um transtorno mental mas deve ser avaliado por especialistas. Os estudos surgiram no início do século XX, quando as pessoas iam caçar e ficavam muito tempo sem contato social e quando retornavam não conseguiam voltar a este convívio, tornando-se uma fobia social. Então, já é possível visualizar, diante deste cenário de isolamento, algumas pessoas podem sim desencadear esta síndrome

Mas volto a dizer e acentuo que todos esses diagnósticos devem ser avaliados por profissionais e que o simples medo ou preocupação em sair de casa ou higienização, não significa que a pessoa está acometida por ansiedade, depressão, transtorno, síndrome ou TOC.

Partiu Ser Nômade: Em quais situações a pessoa deve procurar ajuda profissional?

Ghislene Lima: A busca por uma terapia começa a partir da própria conscientização da necessidade. A pessoa tem que conseguir interpretar os próprios sinais do corpo e concluir que: “Eu preciso de ajuda. Eu não sou perfeito. Eu preciso conhecer os melhores caminhos”.

Existem claro alguns sinais que demonstram que o indivíduo precisa sim de um auxílio. Então, posso citar por exemplo: o medo excessivo, uma fobia social, querer evitar o convívio social a qualquer custo. Os gatilhos do medo e da ansiedade em nosso corpo são apresentados por vezes como sudorese excessiva, palpitação, tremor, rubor, um calor interno no corpo. Estes são alguns exemplos. Mas volto a acentuar que cada caso é um caso e não é um simples sinal que significa que a pessoa está desenvolvendo uma fobia, uma síndrome, etc.

Além disso, se a pessoa perceber que está sendo acometida por um medo mais intenso, é importante procurar ajuda de um profissional da psicologia, para entender melhor o que está acontecendo.

Partiu Ser Nômade: É claro que o seu atendimento é individual e específico. Mas existe algum conselho que você poderia nos dar?

Ghislene Lima: Na verdade eu, enquanto Psicóloga, não dou conselho. Cada um tem um jeito de ser. O que eu oriento é que cada pessoa deve encontrar sua forma melhor de lidar com essa situação. Como ela vai aprender? Não existe uma fórmula. Além do mais, tem pessoas que são mais fortes, outras mais sensíveis, mais fragilizadas, umas têm mais medo, ou menos medo. Não existe mágica. Cada um tem que se encontrar, se conhecer. Buscar em si mesmo as suas forças, detectar suas fraquezas e ver como se autorregular para poder enfrentar a situação lá fora.

A verdade é que toda esta situação da pandemia é muito nova para todos, apesar de já estar a tanto tempo nos noticiários. Não temos uma certeza de nada, nem da vacina. Então, ainda não sabemos o que vamos encontrar lá na frente. Por isso, temos que trabalhar esses medos, essas expectativas para não desenvolver um transtorno. Precisamos preservar a saúde mental. E a terapia é o melhor caminho.

Entretanto, pensando sobre o depois, em contrapartida de algumas coisas que eu disse: eu acredito que é possível tirarmos desta experiência muita coisa positiva, como: a valorização das virtudes, como as referentes à  humanidades, transcendência, temperança, justiça etc; valorização maior sobre a importância da família; o desapego material (pois percebemos que podemos sobreviver com o mais barato); a preocupação com a saúde mental; a preocupação maior com a qualidade de vida, etc.

E você? Se sente preparado para o fim da Pandemia? A Partiu Ser Nômade quer ouvir os seus clientes… Entre em nossas redes sociais e responda nossos stories. Queremos conhecer vocês e construir juntos uma história de força para enfrentarmos isso.

@partiusernomade

Precisa de ajuda psicológica? Por favor, entre em contato com alguma rede de apoio psicológico de sua cidade ou entre na página do CVV – Centro de Valorização da Vida. Eles realizam apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente por telefone, e-mail ou chat, 24 horas por dia, todos os dias da semana. A conversa fica sob total sigilo.

https://www.cvv.org.br/

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